A respiração difícil partia o coração de quem ouvia. Era inacreditável que uma gatinha tão pequena e tão frágil pudesse ter sobrevivido a tudo aquilo. Ana tentou conter as lágrimas e os soluços para escutar o que o veterinário dizia.
- Olha, infelizmente há muito pouco o que fazer. Foram muitas fraturas no rosto e só com várias operações poderiamos estabilizar a estrutura facial para poder dizer se haverá sequelas ou não. O processo todo vai ser muito demorado e sofrido e ela pode não aguentar.
Ela não conseguia lembrar o nome dele. Era muito novo ainda e sorria cheio de consideração por ela e a sua escolha difícil. Já Ana queria gritar e mandá-lo enfiar a sua compaixão na orelha. A única coisa que queria realmente era pgar Agata no colo e levá-la para casa, para junto do seu melhor amigo e pai adotivo. Se fosse para sua gatinha partir, que vivesse seus últimos momentos com a sua família.
- Então, o que você recomenda? Você é o médico afinal…
- É uma pena, ela é tão novinha e mansa. Viveu tão pouco ainda. Mas seria uma vida muito sacrificada se formos fazer o tratamento. Porém, uma simples injeção e dentro de duas horas, ela irá morrer dormindo, tranquila.
- Eu realmente não sei. Preciso pensar.
- Vamos fazer assim. Eu a interno na UTI hoje, você fica com ela um pouco. Amanhã, o nosso ortopedista vai estar aqui e com o raio-x nas mãos vai poder dizer quais as chances de recuperação.
- Mas você, o que acha?
Por um momento, o sorriso diminuiu.
- Sou veterinário há pouco tempo, mas convivi com meu pai que tinha um consultório. Já vi muitas recuperações quase miraculosas, só que a Agata está muito machucada. Acho difícil mesmo.
Mesmo assim, ela segurou as lágrimas e respondeu sorrindo.
- Bem, não custa esperar uma noite, não é? Ela não vai sentir dor.
- Não, vou começar imediatamente com a medicação. Vou dar também um anti-inflamatório. A Agata vai estar bem, pode ficar tranquila.
Segurando a gatinha com todo o cuidado, Ana seguiu o veterinário até a UTI, uma salinha com gaiolas individuais. Era um lugar deprimente, mas o que ela podia esperar? Pelo menos, era limpo, bem iluminado e equipado. Agata ia ficar bem, acomodada em uma gaiola que ficava bem na altura certa para Ana poder ficar com ela. O médico começou a prepará-la para receber o soro e a escritora desviou o olhar. Não queria ver a agulha entrando na patinha magra da sialata.
O outro único ocupante da UTI era um gato tigrado imenso, muito maior que a filhotinha. Para se distrair, leu a ficha. O gato era um macho chamado Igor, estava tomando uma imensa quantidade de remédios e sofria de FIV. Alguém fizera uma anotação “Cuidado, extremamente mal humorado. Morde”
Sorrindo, ela sussurou para o gato.
- Gênio forte, Igor?
O felino respondeu mostrando os dentes e indo em sua direção. Ana deu um passo para trás, chamando a atenção do médico.
- Cuidado com o Igor, ele é bem decidido.
- Deu para perceber.
- Dê um desconto para ele, a família dele o abandonou ao descobrir que ele é FIV positivo. Quer dizer, o largou aqui. Pagam a internação e de vez em quando mandam um pacote de comida, mas nunca vieram visitá-lo.
A opinião dela realmente mudou.
- Pobrezinho. Ele tem todos os motivos para ficar de mal com a vida.
- Pois é. Mas não é um gato malvado. Bem, já dei os remédios e coloquei a Agata no soro. Vou buscar a ficha de internação e deixar vocês a sós, ok?
- OK.
Ela conseguiu segurar as lágrimas até não escutar mais os passos dele. Mas finalmente desabou. Passou a mão no pelo bege da gatinha enquanto soluçava.
- Você vai ficar bem, pequena. Eu prometo. De um jeito ou de outro, tudo vai se resolver.
Ela chorou por muito tempo. Quando começava a se acalmar, ouviu alguém dizer atrás de si.
- Ora, porrrr favorrr. Você rrrealmente acha que essa choradeira vai ajudarrrr a menina em alguma coisa?
Virou-se, assustada. Não tinha percebido a chegada de ninguém.
- Eu… quem está aí?
- Vamos, se não chegou ninguém e só tinha uma pessoa aqui quando vocês chegaram, quem poderia serrrrr?
Ficou boquiaberta ao perceber que a voz vinha da jaula onde Igor estava instalado. O gato estava sentado, lambendo as patas dianteiras.
- Você? Mas você é um gato.
- Jura? Eu não sabia! Como você descobriu?
- E ainda por cima é sarcástico.
Ele se espreguiçou, um pouco sem jeito por causa do soro espetado em sua pata.
- Eu teria mais educação, se fosse você. Afinal, eu posso serrrr a única chance da sua dona.
- Minha dona? Agata?
- Sim, ela mesma.
- Como assim? Quem é você?
- Como sou indelicado – inclinou a cabeça, olhando-a de lado. – Meu nome, como você já sabe, é Igor. O que você não sabe é que sou o Rei dos Gatos.
- Rei dos Gatos? – ela não conseguiu disfarçar a ironia em sua voz.
O gato bocejou.
- Bem, se você não vai me levarrrr a sério, eu vou voltarrr a dormirrr. Estou atrasado para a minha soneca das três.
Era loucura. O choque e a noite sem dormir deveriam estar fazendo com que ela ouvisse coisas. Mas Agata era sua responsabilidade. Ela tinha que tentar de tudo. De tudo mesmo.
- Desculpe, não quis ofender. É que eu nunca vi um gato que falasse.
- Agora já viu e ouviu, dona. Você quer que a menina saia daqui?
- Claro que quero. Ela é minha amiga e minha responsabilidade. O que eu preciso fazer? O que você quer de mim?
- Como o cara de jaleco falou, meus humanos me deixaram aqui. Não se engane, eu acho até bom assim, sabe? Afinal, desde que a Velha morreu, ninguém gostava de mim naquela casa. Aqui, pelo menos, sou tratado de acordo com o meu título. Porém, eu sinto falta das histórias que ela contava.
Ana tinha a sensação de que o médico poderia voltar a qualquer minuto. Estava ansiosa demais.
- É isso que você quer de mim? Histórias?
- Exatamente. Como Rei dos Gatos, eu sou o Juiz das Vidas. Eu decido quando cada uma das nove vidas de um gato tem que ser retirada.
- Então, você sabe dizer quantas vidas sobraram para a Agata?
- Sim. Infelizmente, a criança machucou-se demais. Só há uma vida dentro dela e segurando-se pouco, porrrr um fiapo.
- Deuses! Como posso saber se você está falando a verdade?
Pode ouvir os passos do veterinário aproximando-se.
- Você tem uma noite para pensar no destino de Agata. Pense na minha oferta também.
Ela assinou o papel que o veterinário estendeu, sem prestar muita atenção. Antes de sair, olhou na direção da jaula de Igor e podia jurar que o gato piscou um olho para ela.
Camila Fernandes
junho 7, 2010
Não sei se choro pelo Igor ou pela Agata. Mas tá difícil segurar.
Força pra você, Ana, que consegue ser criativa até nas horas mais doloridas.
talkativebookworm
junho 7, 2010
Brigada, Mila. Nessas horas, a gente tem que se agarrar em alguma coisa mesmo, para poder respirar e aguentar a dor. Ainda não temos nenhuma posição definitiva sobre a cirurgia da pequena, mas tem que ter fé.
Camila Fernandes
junho 7, 2010
E, olha, não sei se o caso do Igor é real, mas sei que muita gente ignorante (e, pior, com preguiça de se informar) faz esse tipo de coisa, abandonando gatos com FIV. A FIV NÃO É CONTAGIOSA PARA HUMANOS, apenas de gato para gato. Mas, claro, se amassem mesmo seus gatos, não os abandonariam por terem FIV, tentariam se informar. Existe desculpe esfarrapada pra tudo. Que os deuses afastem essa gente podre de nós. :-S
talkativebookworm
junho 7, 2010
O Igor-personagem é uma mistura do Igor que está lá na clínica com um outro gato que eu ajudei através de uma ONG que passou justamente por isso, de ser abandonado por ter o FIV. Uma das minhas intenções com esse blog-livro é tentar trazer um pouquinho de informação sobre alguns assuntos do mundo humano que as pessoas ignoram, dizendo que é ‘coisa de bicho’. Vou intercalar a ficção com posts sobre FIV, abandono, maus tratos, ONG, castração, adoção e etc.
Ana Carolina Silveira
junho 7, 2010
A vida é tão frágil, ainda mais de uma gatinha =/
Bonito e triste, espero para ver as próximas histórias.
talkativebookworm
junho 7, 2010
Brigada, Carol. Essa semana mesmo entra no ar a segunda parte, ‘A história do gato que se chamava Camões’
euriomuito
junho 7, 2010
Tá lindo, moça! Suspeitíssimo pra falar, mas tá lindo.
Estou orgulhoso!
talkativebookworm
junho 7, 2010
Obrigada pelo apoio, amor, e pelo desenho. =*
M. D. Amado
junho 7, 2010
Na dor também existe arte e você sabe como aproveitá-la. Parabéns. Muito lindo, comovente e surpreendente.
talkativebookworm
junho 7, 2010
É bom saber que dessa tristeza toda, conseguiu nascer algo bonito. Obrigado!
Octavio
junho 7, 2010
Para quem esteve envolvdo na defesa dos gatos do condomínio ate a semana passada, esse pequeno conto calou fundo. Que triste. Que lindo.
talkativebookworm
junho 7, 2010
Obrigada, Octa!
Snake
junho 7, 2010
Há males que vem para o bem, ou pelo menos para um algo bom. Quem poderia dizer que de um episódio real e infeliz poderia originar um conto interessante e até divertido??
Só almas iluminadas são capazes disso!
Já assistiu ao Reino dos Gatos, do mestre Miyazaki? Foi lançado no Brasil. É mto legal (e lindo, como tudo que ele faz, claro!).
Não gosto de vets, como tbm não gosto de médicos. Ambos ou são crueis ou são mentirosos.
Uma das muitas gatas que tivemos teve hemobarcela (ou algo parecido com esse nome, rs) e estava nas últimas. A solução que me deram era fazer uma transfusão. Me disseram que ela poderia tanto se salvar quanto não dar certo, porque transfusão em gato é imprevisível… SÓ QUE não me disseram que o “não dar certo” é que ela morreria… imagine o que senti quando me ligaram dizendo que ela tinha morrido por problemas com a transfusão?! Poxa, se era pra matar ela, tivesse deixado em casa e ela ainda ganharia alguns dias de vida conosco, no conforto da casa em que nasceu e viveu a vida toda!
Espero que a Agata viva.
Bjos!
talkativebookworm
junho 10, 2010
Oi, Snake.
Ainda não assisti ao Reino dos Gatos, mas como ele foi bem recomendado, já encomendei o meu nas Americanas.com
Como em qualquer profissão, existem os bons e maus profissionais da area de saúde – humana ou animal. Eu sempre dei sorte com os veterinários dos meus bichinhos, que foram atenciosos, cuidadosos e sempre tendo o melhor para os bichinhos em mente.
Muito triste o que aconteceu com a sua gatinha, é terrível perder um gato assim, ainda mais longe, na clínica.
A Agata já operou e está em casa, se recuperando e aprontando.
Bjs!
Mary
junho 7, 2010
Nossa, fui fuçar no google para descobrir o que é FIV. Nem sabia que existia.
Você já assistiu o Reino dos Gatos, do Studio Ghibli? Imaginei o Igor igual ao rei dos gatos do filme. ^_^ Inclusive com um sotaque esquisito.
talkativebookworm
junho 10, 2010
Mary, você foi a segunda pessoa a lembrar desse filme! Já encomendei meu dvd pra conhecer esse outro Rei dos Gatos.
Sobre FIV, fiz um post chamado Interlúdio 1, falando um pouco mais sobre a doença.
Danielole
junho 7, 2010
Ana, definitivamente você se superou dessa vez.
Está absolutamente fantástico!!!!!
talkativebookworm
junho 10, 2010
Obrigada, amor.
Tem mais por aí.
Rafael "Lupo" Monteiro
junho 7, 2010
Bonito e triste! Vamos torcer pela sua gatinha!
Acho revoltante quem abandona os bichinhos de estimação assim, sem nem ir visitá-los. Depois dizem que os gatos é que são frios….
talkativebookworm
junho 10, 2010
É, Lupo. Sad but true.
Uma coisa que eu aprendi na convivência é que gatos não são frios. Nem um pouco. Quem consegue respeitá-los, com sua personalidade forte, descobre o quão carinhosos e fieis eles podem ser.
Ana Lúcia Merege
junho 7, 2010
Lamento pela Ágata da vida real – aliás, como ela está? – e por sua humana. Torcendo muito por vocês.
Mas quero ver como isso continua. Que história você contará ao Rei dos Gatos?
talkativebookworm
junho 10, 2010
Oi, xará!
Agata está em casa desde ontem, se recuperando aos poucos e com muitos remédios. Mas vai se recuperar 100%
E eu e o Rei dos Gatos ainda vamos bater altos papos.
Tânia
junho 10, 2010
De uma ternura comovente e, além de tudo, uma narrativa que apaixona, as vezes a tristeza consegue ser muito bonita quando a sensibilidade a descreve . Gostei e quero ler mais, muito mais dessa saga toda charmosa e felina.
talkativebookworm
junho 10, 2010
Puxa, muito obrigada, Tânia. Espero que você goste da continuação da história.
Vinicius Machado
junho 24, 2010
Muito bom! Adoro o jeito que você escreve… ^^ parabéns (indo para a segunda parte)