O começo

Publicado em maio 25, 2011

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A respiração difícil partia o coração de quem ouvia. Era inacreditável que uma gatinha tão pequena e tão frágil pudesse ter sobrevivido a tudo aquilo. Ana tentou conter as lágrimas e os soluços para escutar o que o veterinário dizia.

- Olha, infelizmente há muito pouco o que fazer. Foram muitas fraturas no rosto e só com várias operações poderiamos estabilizar a estrutura facial para poder dizer se haverá sequelas ou não. O processo todo vai ser muito demorado e sofrido e ela pode não aguentar.

Ela não conseguia lembrar o nome dele. Era muito novo ainda e sorria cheio de consideração por ela e a sua escolha difícil. Já Ana queria gritar e mandá-lo enfiar a sua compaixão na orelha. A única coisa que queria realmente era pgar Agata no colo e levá-la para casa, para junto do seu melhor amigo e pai adotivo. Se fosse para sua gatinha partir, que vivesse seus últimos momentos com a sua família.

- Então, o que você recomenda? Você é o médico afinal…

- É uma pena, ela é tão novinha e mansa. Viveu tão pouco ainda. Mas seria uma vida muito sacrificada se formos fazer o tratamento. Porém, uma simples injeção e dentro de duas horas, ela irá morrer dormindo, tranquila.

- Eu realmente não sei. Preciso pensar.

- Vamos fazer assim. Eu a interno na UTI hoje, você fica com ela um pouco. Amanhã, o nosso ortopedista vai estar aqui e com o raio-x nas mãos vai poder dizer quais as chances de recuperação.

- Mas você, o que acha?

Por um momento, o sorriso diminuiu.

- Sou veterinário há pouco tempo, mas convivi com meu pai que tinha um consultório. Já vi muitas recuperações quase miraculosas, só que a Agata está muito machucada. Acho difícil mesmo.

Mesmo assim, ela segurou as lágrimas e respondeu sorrindo.

- Bem, não custa esperar uma noite, não é? Ela não vai sentir dor.

- Não, vou começar imediatamente com a medicação. Vou dar também um anti-inflamatório. A Agata vai estar bem, pode ficar tranquila.

Segurando a gatinha com todo o cuidado, Ana seguiu o veterinário até a UTI, uma salinha com gaiolas individuais. Era um lugar deprimente, mas o que ela podia esperar? Pelo menos, era limpo, bem iluminado e equipado. Agata ia ficar bem, acomodada em uma gaiola que ficava bem na altura certa para Ana poder ficar com ela. O médico começou a prepará-la para receber o soro e a escritora desviou o olhar. Não queria ver a agulha entrando na patinha magra da sialata.

O outro único ocupante da UTI era um gato tigrado imenso, muito maior que a filhotinha. Para se distrair, leu a ficha. O gato era um macho chamado Igor, estava tomando uma imensa quantidade de remédios e sofria de FIV. Alguém fizera uma anotação “Cuidado, extremamente mal humorado. Morde”

Sorrindo, ela sussurou para o gato.

- Gênio forte, Igor?

O felino respondeu mostrando os dentes e indo em sua direção. Ana deu um passo para trás, chamando a atenção do médico.

- Cuidado com o Igor, ele é bem decidido.

- Deu para perceber.

- Dê um desconto para ele, a família dele o abandonou ao descobrir que ele é FIV positivo. Quer dizer, o largou aqui. Pagam a internação e de vez em quando mandam um pacote de comida, mas nunca vieram visitá-lo.

A opinião dela realmente mudou.

- Pobrezinho. Ele tem todos os motivos para ficar de mal com a vida.

- Pois é. Mas não é um gato malvado. Bem, já dei os remédios e coloquei a Agata no soro. Vou buscar a ficha de internação e deixar vocês a sós, ok?

- OK.

Ela conseguiu segurar as lágrimas até não escutar mais os passos dele. Mas finalmente desabou. Passou a mão no pelo bege da gatinha enquanto soluçava.

- Você vai ficar bem, pequena. Eu prometo. De um jeito ou de outro, tudo vai se resolver.

Ela chorou por muito tempo. Quando começava a se acalmar, ouviu alguém dizer atrás de si.

- Ora, porrrr favorrr. Você rrrealmente acha que essa choradeira vai ajudarrrr a menina em alguma coisa?

Virou-se, assustada. Não tinha percebido a chegada de ninguém.

- Eu… quem está aí?

- Vamos, se não chegou ninguém e só tinha uma pessoa aqui quando vocês chegaram, quem poderia serrrrr?

Ficou boquiaberta ao perceber que a voz vinha da jaula onde Igor estava instalado. O gato estava sentado, lambendo as patas dianteiras.

- Você? Mas você é um gato.

- Jura? Eu não sabia! Como você descobriu?

- E ainda por cima é sarcástico.

Ele se espreguiçou, um pouco sem jeito por causa do soro espetado em sua pata.

- Eu teria mais educação, se fosse você. Afinal, eu posso serrrr a única chance da sua dona.

- Minha dona? Agata?

- Sim, ela mesma.

- Como assim? Quem é você?

- Como sou indelicado – inclinou a cabeça, olhando-a de lado. – Meu nome, como você já sabe, é Igor. O que você não sabe é que sou o Rei dos Gatos.

- Rei dos Gatos? – ela não conseguiu disfarçar a ironia em sua voz.

O gato bocejou.

- Bem, se você não vai me levarrrr a sério, eu vou voltarrr a dormirrr. Estou atrasado para a minha soneca das três.

Era loucura. O choque e a noite sem dormir deveriam estar fazendo com que ela ouvisse coisas. Mas Agata era sua responsabilidade. Ela tinha que tentar de tudo. De tudo mesmo.

- Desculpe, não quis ofender. É que eu nunca vi um gato que falasse.

- Agora já viu e ouviu, dona. Você quer que a menina saia daqui?

- Claro que quero. Ela é minha amiga e minha responsabilidade. O que eu preciso fazer? O que você quer de mim?

- Como o cara de jaleco falou, meus humanos me deixaram aqui. Não se engane, eu acho até bom assim, sabe? Afinal, desde que a Velha morreu, ninguém gostava de mim naquela casa. Aqui, pelo menos, sou tratado de acordo com o meu título. Porém, eu sinto falta das histórias que ela contava.

Ana tinha a sensação de que o médico poderia voltar a qualquer minuto. Estava ansiosa demais.

- É isso que você quer de mim? Histórias?

- Exatamente. Como Rei dos Gatos, eu sou o Juiz das Vidas. Eu decido quando cada uma das nove vidas de um gato tem que ser retirada.

- Então, você sabe dizer quantas vidas sobraram para a Agata?

- Sim. Infelizmente, a criança machucou-se demais. Só há uma vida dentro dela e segurando-se pouco, porrrr um fiapo.

- Deuses! Como posso saber se você está falando a verdade?

Pode ouvir os passos do veterinário aproximando-se.

- Você tem uma noite para pensar no destino de Agata. Pense na minha oferta também.

Ela assinou o papel que o veterinário estendeu, sem prestar muita atenção. Antes de sair, olhou na direção da jaula de Igor e podia jurar que o gato piscou um olho para ela.

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