Interlúdio 1

Publicado em junho 2, 2011

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Ana abriu o portão do seu quintal sentindo-se exausta. Descobriu a sua gatinha ferida no quintal logo de manhã cedo, saiu desesperada, sem pensar em nada além de salvá-la. Ainda bem que tivera o apoio do marido, sempre atento, e da mãe, que ficou com seu filho. Mas como jornalista ele estava trabalhando apesar do feriado e não pudera ficar com elas.

O outro homem da casa, na ausência dos humanos, veio recebê-la no portão, indignado. Miou alto, reclamando a presença da filha adotiva.

- Oi, Leão, coisa mais fofa e sem rabo da mamãe. A gatinha teve que ficar no médico, mas tudo vai ficar bem, ok?

Por mais estranho que pareça, ela odiava mentir pro gato. Ele podia parecer bobo, mas era um dos bichos mais espertos que já conhecera. Aliás, um dos seres mais inteligentes, e isso, para alguém que convivia com acadêmicos e intelectuais de todos os tipos, dos verdadeiros aos pseudos, era dizer bastante.

Passou a mão no pelo alaranjado do gato, que fechou os olhos, momentaneamente apaziguado da saudade que sentia de Agata. O cachorro vira-lata, que habitava um quintal separado para não influir no domínio dos felinos, ganiu, cheio de ciúme, observando a cena com a cabeça por cima do muro.

- Ai, que ciúme tão grande. Depois a gente sai pra passear, Dourado.

Com cuidado para não pisar no gato que se embaraçava nas suas pernas, conseguiu abrir a porta de casa. Como um raio, Leão entrou na sala, miando desesperado. Procurou Agata em todos os cômodos, olhou em todos os lugares em que ela costumava se esconder. Inconformado, reclamou alto e deitou-se num monte de roupa do Estevão. Ana sorriu, lembrando que o marido tinha escovado a gatinha no dia anterior quando usava aquela roupa.

- Quer pelo menos sentir o cheiro dela, né? Tudo bem, por hoje pode ficar.

Ligou para a mãe, que morava em cima dela, e avisou que já tinha chegado. Miguel decidiu dormir na casa da avó e como o dia tinha acabado com ela, concordou. Estava indo para a cozinha, ver se podia afogar as mágoas em refrigerante sem açúcar quando a campainha tocou. Antes que ela atendesse, ouviu o som do portão se abrindo e a voz de sua irmã mais nova.

- Ana? Como está a gatinha?

As duas eram diferentes demais para serem amigas e parecidas demais para poderem conviver em harmonia. Porém, havia um ponto em comum que as ligava. As duas adoravam bichos e faziam de tudo por eles, não sendo raro o dia em que cuidavam de algum animal na rua ou mesmo que carregassem um pobre órfão desolado para casa.

- Mamãe te contou?

- Sim, ela me ligou quando eu estava vindo para casa. Oi, Leão, como está o movimento dos Sem Rabo? – acariciou o gato, que miou alto, respondendo. Ele tinha nascido com apenas um cotoco de rabo, que ainda por cima terminava em um gancho. Apesar da maioria das pessoas achar que aquilo prejudicava o seu equilíbrio, era um dos gatos mais ágeis que conheciam – Então, o que o veterinário falou?

Ana desconversou, torcendo para que a irmã não percebesse a mudança de assunto.

- Bem, ela está internada na clínica. Agora, é ver como fica. Aliás, a UTI é bem vazia. Só tem ela e o Igor, um gato com FIV que deixaram lá.

-Pô, sério? Cara, fico pê da vida com isso, sabia? É muita ignorância junta desse pessoal, deixar o bicho desamparado.

- Calma, Ciça, ele não está desamparado, estão pagando a estadia – ela tentou acalmar a irmã, sem muito sucesso.

- Nem vem com essa. Como se o bicho só precisasse disso, um teto, água, comida e remédios. E carinho?

Ana respondeu, já com a cabeça na geladeira. O refrigerante estava um pouco sem gás, mas a cafeína seria benvinda.

- O pessoal da clínica parece ser muito atencioso, não acho que…

- Você sabe muito bem que não é a mesma coisa, Ana. Você lembra do nosso Bóris, como ele ficou?

Bóris era um collie, da mesma padronagem consagrada pela Lassie. Manso e de muito boa paz, tinha sido abandonado pelos seus donos, vizinhos de baixo do sobrado no qual a família Rodrigues morava. Apesar de todo o carinho e dedicação – e das bisnagas que o pai das duas levava escondido para o cachorro, viciado em pão francês – Bóris tinha morrido de tristeza em apenas dois anos após seu abandono, ainda novo para a sua raça.

- Lembro, claro. Como ia esquecer? Ele nos adorava, mas nunca se recuperou. Mas é diferente, o gatinho está doente, vai que é uma coisa grave, contagiosa.

Serviu um copo de refrigerante para a irmã e outro para ela.

- Completamente sem gás, que coisa horrível.

- É o que tem, oras. Se quer melhor, vai na padaria comprar.

O cachorro ganiu lá fora, ansioso para dar o seu passeio.

- Então vamos? A gente leva o Dourado e eu aproveito pra explicar umas coisinhas sobre FIV e AIDS felina.

- Feito.

O cachorro – uma mistura de Golden Retriver com vira-lata – estava extremamente satisfeito de ter mais companhia para o seu passeio noturno. Enquanto ele cheirava aqui e ali, identificando o que já conhecia e estranhando o resto, as irmãs continuaram a conversar.

- É impressionante como ele ganhou porte nesses dois meses que está com vocês.

- Já avisei ao Estevão que não vai demorar muito para que eu não consiga mais levá-lo para passear. Ele já quase me arrasta.

- Ah, é mais ansiedade do que qualquer outra coisa, afinal ele ficou um tempão preso naquele abrigo, deve estar querendo resgatar o tempo perdido.

- Tomara. Mas então, o que é essa tal de ‘AIDS felina’?

- Bem, como o próprio nome já diz, é versão da doença que atinge gatos. Funciona do mesmo jeito, inclusive.

- Viu? Foi por isso que abandonaram o gato. Não queriam que ele transmitisse AIDS para ninguém.

A irmã olhou para cima e respirou fundo.

- Santa Ignorância, viu? O vírus não passa para humanos. O FIV é aparentado com o HIV, sim, mas são diferentes. Nem a nossa afeta eles, nem o contrário.

- Ué, então por que abandonaram o bichinho?

- Infelizmente, muita gente faz isso. A AIDS felina é uma doença relativamente nova, foi descoberta um pouco depois da humana, e se sabe muito pouco sobre ela. O pouco que se sabe é muito pouco divulgado, então quando recebem o diagnóstico as pessoas se apavoram, pensam que vão pegar AIDS do gato e o largam em qualquer canto. O Igor teve sorte de ter sido deixado numa clínica, mas muitos deixam os bichos na rua mesmo.

- Dourado, não! – o cachorro estava tentando morder o saco de lixo que estava no alto de uma estrutura de ferro, justamente para evitar que fosse rasgado antes da coleta. – Faz assim não, rapaz, que vão achar que você é vira-lata. Mas se o bichinho estiver castrado não vai contaminar os outros, né?

- Não liga pra ela, Dourado, você tem que ter orgulho da sua falta de raça! – fez um carinho na cabeça do cão, que pareceu sorrir de volta. – Na verdade, é mais complicado que isso. A castração faz com que o animal não seja mais fértil nem entre no cio, mas não impede que ele tenha relações. Ou que entre em brigas, arranhando e mordendo. Aí já viu, né?

- Putz, também passa pela saliva e pelas unhas?

- Sim, também. O FIV se alastra muito fácil em gatos de rua por causa disso, afinal eles vivem brigando entre si, disputando território e comida.

Ana se lembrou de Igor e do título que reivindicou como seu. “Bom, para ser o Rei dos Gatos ele deve ter brigado muito mesmo”. Chegaram na padaria, que estava bem movimentada para aquela hora da noite. Cecília ficou com Dourado na porta, enquanto Ana entrou para comprar refrigerante e pão que acabara de sair. O cheiro de pão quente fez o cachorro ganir.

- Nada disso, Dourado, você não pode comer pão, faz mal e você sabe disso! Em casa, tem uma ração deliciosa para você.

Inconformado, o cachorro bufou de volta. As duas riram e começaram o caminho de volta.

- Então, a AIDS felina é um problema tão grande para eles quanto a humana é para nós.

- Sim, é. Também não tem cura e deixa o animal extremamente vulnerável a infecções oportunistas. O tratamento é bem caro. Como não há os subsídios que existem para o coquetel de remédios humano, o preço é proibitivo. O exame de sangue também é mais caro do que a média dos exames veterinários, o que torna o diagnóstico precoce muito raro.

- É sério mesmo. Como a população de gatos de rua só tende a aumentar, é uma bola de neve. Não consigo ver solução.

- Solução mesmo seria não ter gatos de rua, a criação responsável e a castração sempre que não se pretenda ficar com toda a ninhada. Muita gente deixa o animal engravidar porque quer um filhotinho e esquece que geralmente nascem mais gatinhos. Aí, ou abandona ou empurra os bebês para qualquer pessoa cuidar. O destino final é geralmente o mesmo.

Ana lembrou de Agata, que tinha sido abandonada em um valão naquela mesma rua, antes mesmo de completar um mês de vida.

- É, é muita irresponsabilidade mesmo.

Tinham chegado no portão. Cecilia fez um último afago no cachorro.

- Vou subir pra jantar. Miguel está lá em cima?

- Sim, pediu pra dormir com a avó.

- Normal. Escuta, você não me respondeu sobre a Agata.

Por um instante, ela teve vontade de contar a estranha conversa que tinha tido com o gato. Porém, sua irmã era uma pessoa muito pragmática, dificilmente acreditaria no que ela iria contar. Ana suspirou.

- É grave. Muito grave.

A irmã esperou um pouco antes de responder.

- Falaram em sacrificar a bichinha, né? Olha, eu tenho certeza de que você vai tomar a escolha certa. Até amanhã.

Enquanto trancava a porta, Ana desejava mentalmente ter a mesma confiança em si.

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